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terça-feira, 28 de julho de 2009

No alto do Itobira





Parei, olhei e achei que não conseguiria. O que me apavorava mais não era a subida. Era a descida. O grupo já tinha andado umas duas horas e não estava nem no pé do morro que iria subir naquele dia. O ar já estava faltando. Não chegava ao pulmão. Parava antes, na garganta, no pavor e na ansiedade de quem não dá conta do presente porque já está sofrendo com o futuro.


Lembrei disso ontem. Aquele foi o momento mais marcante da viagem. Foram dez dias. Umas cinco cidades. Uma natureza muito diferente da que estamos acostumados. Mas o que ficou mesmo foi aquela sensação de ansiedade. Convivo com ela há 35 anos, mas nunca tinha sido tão assustadora.

Lembrei ontem que parei, chorei e continuei porque não estava sozinha.

Acho que tá faltando coragem. Tá na hora de parar de andar só por responsabilidade.



segunda-feira, 27 de julho de 2009

Aniversário

Amiga, faz um ano que eu peguei o skatista de 23 anos. É sobre isso que precisamos conversar. Talvez a solução esteja na Lapa. Como duvidar às quatro da madruga que ele ainda não tem nem 23 anos e que skatista é um neologismo para desocupado. Melhor acreditar e aproveitar.

Por que eu não pensei no skatista quando ele fez aquela pergunta? Estava sendo escroto, parecia que queria me foder, mas e daí. O papo estava bom. No final das contas quem decide se vai dar ou não sou eu.

Eu dei. Não para o skatista. Mas pra ele. Dei de presente quatro dias da minha vida e uma grande confusão. Me ferrei e foi sozinha.

Isso tudo é pra dizer que você tem razão. Tô levando isso tudo muito a sério. Por que me incomodar se ele não me deu a mão quando eu estava com a minha esticada? O skatista passou, eu decidi sozinha se ia comer ele ou não e ainda aproveitei a mão esticada pra passar nele.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sobre o meu umbigo

Você escreve ficção ou é só para exorcizar fantasmas? A pergunta era inocente e a resposta era óbvia, mas doeu. Eu, que sempre defendi a ficção, que morro de preguiça de ler biografias, ando escrevendo para exorcizar fantasmas, falando do meu próprio umbigo. Só não me senti mais medíocre porque tinha acabado de voltar da Flip e estava com um post pela metade sobre o tema que mais me atraiu na programação e que marcou presença em várias mesas: a confusão entre o público e o privado.

Não tenho nenhuma pretensão literária, mas me consola saber que na era dos blogs e twitters ainda tem gente que consegue transformar experiência pessoal em arte e boa literatura sem ser engolido pelo próprio umbigo. Claro que não dá para chamar o Doce Veneno do Escorpião, da Bruna Surfistinha, de literatura. (Esse eu li, confesso, e com interesses sórdidos) Mas quem é capaz de dizer que a ferroada que a francesa Sophie Calle deu no ex-namorado Gregoire Bouillier não é coisa de artista, daqueles mais excêntricos?

A moça diz que tem o hábito de tentar inverter as histórias para sair por cima e chama de "projeto" a iniciativa que fez com que 107 mulheres, de várias profissões diferentes, respondessem o e-mail em que o tal Greg terminava com ela. É claro que talento e criatividade são sempre excelentes armas, mas o melhor foi ouvi-la dizer que, a partir de um certo momento, o projeto já parecia muito mais importante do que a história de amor e ela teve medo que ele voltasse porque destruiria o projeto. Muito bom!

Agora, escrevendo esse post, fico pensando em quantas histórias novas só são possíveis porque outras já terminaram. E quantos projetos que começam como fuga, como uma forma de dar sentido, dar a volta por cima, não acabam se tornando mais importantes do que a motivação inicial.

Talvez o embate entre o público e o privado passe pela definição sobre o que está acabado ou não. Então, enquanto a artista Sophie desenvolve projetos, eu treino para contar histórias (e exorcizo fantasmas).