Barulhinho
A cada sms, imaginava que fosse ela. Naquele dia, era. Sim. Podia ligar. Ligou. Precisou ser solene. A nova vida já fazia barulho ao lado.
Eremita
A respostas que procurava, encontrou no tarot. A posição do Eremita dizia: não perturbe e escute o que ele tem a dizer. Tarde demais.
SMS
+ 88886666
Posso ligar.
+ 88888667
Sim.
(...)
+ 88888666
Não queria atrapalhar.
+ 88888667
Tudo bem.
Queria atrapalhar.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
DISTÂNCIA
Não passava um dia sem imaginar como Laura estaria agora. Lembrava que era uma mulher bonita. Chegou a ser eleita a rainha do bloco de carnaval da vila. Já devia beirar os 70 anos. Tinham se visto pela última vez há mais de 20 anos.
Ela nunca havia entendido Marcelo, sua imaturidade. Via nele os homens que tantas vezes a abandonaram, que tantas vezes a decepcionaram. Reclamava de suas brincadeiras sem graça. Não suportava aquela dependência. Não conseguia viver naquele universo infantil.
A cada esquina que virava, Marcelo imaginava encontrá-la. Naquela idade, todas as mulheres eram loiras, tinha ouvido de muitas das mulheres que conhecera depois. Tentou amar muitas delas. Não conseguiu. Ainda imaginava Laura como uma mulher bonita, bem cuidada.
Mais de 20 anos depois, Laura ainda não entendia como tivera coragem de tomar aquela decisão. Por que Marcelo não fizera como todos os outros? Por que não veio atrás dela? Por que só ele nunca implorou por seu amor?
Ela viajava. Ele não. Ela ia ao cinema. Ele não. Marcelo se recusava a fazer qualquer coisa que o fizesse se sentir no universo que Laura tanto almejara e que fizera com que o abandonasse.
Apesar da decisão – ou por causa dela -, a vida tinha sido movimentada, Laura reconhecia. Viagens, festas, cinema, amigos. Então, por que sentia falta de Marcelo? Saudades? Culpa? Mágoa? O que quer que fosse era preciso continuar a viver. As festas já não eram tão divertidas. As viagens, cansativas. Mas ela precisava continuar.
A vida de Marcelo era preenchida por provas, concursos, conquistas, mulheres. Passou a viver em busca de testes. Perdeu a conta de quantas vezes se colocou naquela situação depois que ela o deixou. Em todos os momentos, o sentimento era o mesmo. Precisava provar. Precisava continuar.
Laura observava e sentia que a família reunida em casa não era a dela. A vida continuava, mas não era a dela. Os filhos não eram os dela, a casa não era a dela, nem mesmo o marido era mais o dela.
Marcelo se sentia paralisado. A casa não era a dele. A cozinha não tinha fogão. O banheiro não tinha chuveiro. Sentia falta mesmo dos gritos e das reclamações. Ali, agora, só o barulho da televisão ligada 24 horas por dia. Alguém precisava tomar conta de casa enquanto ele não estava.
***
Foi Marcelo quem fez o primeiro contato. A vida os havia separado. A burocracia não. Os vínculos legais nunca deixariam de existir. Havia pendências a resolver.
Aquele era o aceno que Laura havia esperado por tanto tempo. Queria conversar. Marcelo sempre foi um bom ouvinte. De alguma forma, pelo telefone, voltaram a viver juntos. 20 anos e nada mudara. Laura falava. Marcelo ouvia. Marcelo questionava. Laura não respondia.
Longe, naquela outra casa, Laura pressentia que lá fora havia mulheres em quem o menino confiava mais do que nela, que ele amava mais do que a ela. Sempre evitou pensar nisso.
Na rua, Marcelo conhecia outras mulheres, se relacionava com elas. Sentia prazer em impor a elas a dor e o desprezo que sua mãe Laura o fez sentir aos 18 anos. O tempo só reforçou suas certezas. Não encontrou nenhuma que o fizesse mudar de idéia. Passava dos 40. A mãe não sabia, mas ele tinha treinado para desvendar mulheres. Não conseguia acreditar nelas.
Ela nunca havia entendido Marcelo, sua imaturidade. Via nele os homens que tantas vezes a abandonaram, que tantas vezes a decepcionaram. Reclamava de suas brincadeiras sem graça. Não suportava aquela dependência. Não conseguia viver naquele universo infantil.
A cada esquina que virava, Marcelo imaginava encontrá-la. Naquela idade, todas as mulheres eram loiras, tinha ouvido de muitas das mulheres que conhecera depois. Tentou amar muitas delas. Não conseguiu. Ainda imaginava Laura como uma mulher bonita, bem cuidada.
Mais de 20 anos depois, Laura ainda não entendia como tivera coragem de tomar aquela decisão. Por que Marcelo não fizera como todos os outros? Por que não veio atrás dela? Por que só ele nunca implorou por seu amor?
Ela viajava. Ele não. Ela ia ao cinema. Ele não. Marcelo se recusava a fazer qualquer coisa que o fizesse se sentir no universo que Laura tanto almejara e que fizera com que o abandonasse.
Apesar da decisão – ou por causa dela -, a vida tinha sido movimentada, Laura reconhecia. Viagens, festas, cinema, amigos. Então, por que sentia falta de Marcelo? Saudades? Culpa? Mágoa? O que quer que fosse era preciso continuar a viver. As festas já não eram tão divertidas. As viagens, cansativas. Mas ela precisava continuar.
A vida de Marcelo era preenchida por provas, concursos, conquistas, mulheres. Passou a viver em busca de testes. Perdeu a conta de quantas vezes se colocou naquela situação depois que ela o deixou. Em todos os momentos, o sentimento era o mesmo. Precisava provar. Precisava continuar.
Laura observava e sentia que a família reunida em casa não era a dela. A vida continuava, mas não era a dela. Os filhos não eram os dela, a casa não era a dela, nem mesmo o marido era mais o dela.
Marcelo se sentia paralisado. A casa não era a dele. A cozinha não tinha fogão. O banheiro não tinha chuveiro. Sentia falta mesmo dos gritos e das reclamações. Ali, agora, só o barulho da televisão ligada 24 horas por dia. Alguém precisava tomar conta de casa enquanto ele não estava.
***
Foi Marcelo quem fez o primeiro contato. A vida os havia separado. A burocracia não. Os vínculos legais nunca deixariam de existir. Havia pendências a resolver.
Aquele era o aceno que Laura havia esperado por tanto tempo. Queria conversar. Marcelo sempre foi um bom ouvinte. De alguma forma, pelo telefone, voltaram a viver juntos. 20 anos e nada mudara. Laura falava. Marcelo ouvia. Marcelo questionava. Laura não respondia.
Longe, naquela outra casa, Laura pressentia que lá fora havia mulheres em quem o menino confiava mais do que nela, que ele amava mais do que a ela. Sempre evitou pensar nisso.
Na rua, Marcelo conhecia outras mulheres, se relacionava com elas. Sentia prazer em impor a elas a dor e o desprezo que sua mãe Laura o fez sentir aos 18 anos. O tempo só reforçou suas certezas. Não encontrou nenhuma que o fizesse mudar de idéia. Passava dos 40. A mãe não sabia, mas ele tinha treinado para desvendar mulheres. Não conseguia acreditar nelas.
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