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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Flores

Estava a caminho do estacionamento quando viu o florista. Nunca tinha gostado de flores. Adorava jardins, tinha suas próprias ferramentas, mas sempre associara arranjos, buquês a velórios, morte. Desconfiava até das decorações de casamento.

Talvez por isso tenha estranhado o impulso. Aquela vontade de levar pra casa um arranjo daqueles. A constatação de beleza naquele carrinho com vários buquês apertados, arranjados.

Só se deu conta depois de passar a noite toda a espera de notícias.

Finalmente entendeu o significado das flores. Elas não servem apenas aos mortos. Servem aos vivos, ajudam a situá-los fora do caixão.

Deveria ter comprado. Estava de luto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Biscoitinho da sorte

Achou que o mais dificil seria encontrar inspiração. Há quase seis meses nao escrevia nada. Que nada! Primeiro, nao lembrava da senha. Depois, nao sabia como sacar o teclado na interface do editor do blog. Aquilo devia ser um sinal. Melhor ficar calada. Ouvir o barulho do próprio pensamento.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Notícias

Fala, amigo!!!

Melhor, quem tá precisando falar sou eu.

Sabe aquela sua caixa postal? Me dá o número? Deveria ter pedido o número. Tá fazendo tanta falta. Queria te mandar o livro que estou lendo.

Ontem o telefone tocou. Era você. Desculpa. Não deu para atender.

Você nem sabe como está melhor agora. Não pra mim. Conheço bem esse cantinho onde você vive agora. Não sei bem o caminho, mas cheguei algumas vezes. Daí, pra mim, você é o mais legal. Por isso não podia atender. Arriscava estragar tudo.

Mas tinha tanto pra contar.

Então, comecei a ler um livro novo hoje. Muito bom. Fala da história cultural das línguas. Não sei se teria comprado se não fossem todas aquelas conversas pelo telefone. Muita DR e Shakespeare. Como você gosta de DR. E de Shakespeare. E de Kiss.

Para não perder tudo isso, até aprendi a falar no telefone. Sinto falta da secretária eletrônica. Ela ainda fala espanhol?

Não sei se aprendi. O telefone. Quer dizer, não sei se aprendi a falar no telefone. Tenho tentado.

Pra coisas práticas, até que anda funcionando. Tem gente que "via Embratel" é muito mais suportável. Por que eu nunca pensei nisso antes?!

Um liga, diz que tá tudo bem. Aqui também. Tá tudo bem. Às vezes eu conto um problema. Gera empatia. Torna tudo mais crível. Não foram só o meu "Relaxa" ou o "Vai dar tudo certo" que perderam a credibilidade. Ficar dizendo que tá tudo bem também dá o maior problema. Tem quem acredite e não goste e quem goste e não acredite. Fazer o quê?

Acho que também andei escolhendo errado os últimos interlocutores. Você riria se soubesse. Vou continuar sem atender suas ligações. Nem adianta se animar. Mas quanta falta de assunto - a deles!!!

Juro que me esforcei. Gastei toda a lábia e a língua. Citei vários daqueles filmes que só eu vejo. Fiz até piada. Não deu. Não deu pra dizer que tá tudo bem.

Ele ainda perguntou se era TPM. Disse que não, claro. Levei anos para entender minha montanha russa hormonal. Não dava pra explicar em cinco minutos.

Quanto tempo mesmo você levou para entender? Jekyll and Hyde. Lembra?

Mas acho que foi bola fora mesmo. O cara, sabe. Não tinha um livro de poesia na casa do cara. Nem o Código Da Vinci. Pelo menos, nem o Código Da Vinci.

É. A análise tá funcionando. A menina baixa auto estima tem certeza que foi bem legal. Não "a mais legal", mas bem legal. Não funcionou. Paciência.

Ah! Descobri que gosto de Kiss.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Transitivo direto

Aprendeu a evitar adjetivos bem antes de se tornar jornalista. Ela era substantiva. Tudo na sua vida era. E com artigo definido. O amor e não um amor. As escolhas. As palavras. Até os atos eram substantivos. Existiam para serem nomeados.

Tanta assertividade, era de se esperar que um dia cansasse. Foram-se os substantivos, as certezas e ficou o vazio. Mesmo se quisesse, não havia o que adjetivar. No vazio, não há nem bem nem mal. Nem bonito nem feio. Nem bom ou ruim.

E quando o vazio realmente tomou conta de tudo, achou que era tempo de preencher aquele tempo com ações. A vida continuou. O coração ainda batia, ainda precisava se alimentar, trabalhar, enfim, agir. Primeiro, os equívocos. Ação por quem não sabe agir. Depois, as ações que não geram arrependimento, prazer ou culpa. Ação de quem é, pra quem é.

Agora era verbo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De estilingue a vidraça

Só de olhar, diria que o cara era um babaca. Mas ele era inteligente. Foi o primeiro a sacar ela. Disse que ela tinha cobrinhas saindo da cabeça, avisou o amigo. Mal sabia que na manhã seguinte ela acordaria a própria Medusa, aquela que transforma quem a olha em pedra. Like a Rolling Stone. Mais uma pedra rolava.

Não gostava daquela sensação. Brincava que era a mais legal. Dizia que ninguém sobrevivia e achava graça. Mas não era isso que dizia o telefone que tocava dia sim dia não. Sempre o mesmo número. Como se do outro lado a secretária eletrônica paraguaia tivesse sido programada para retornar a ligação em dias e horas determinados e lembrá-la que ele continuava vivo.Ele e todos os outros.

Já não podiam estar juntos. Não havia mais nada a dizer. Pedras machucam e ela nunca tinha nada a dizer. Era apenas um estilingue. Com boa mira, mas um estilingue.

Tentava lembrar quando havia desapredido a falar. Lembrou da psicóloga. As crises de ansiedade na adolescência e a frase que a perseguia há mais de 20 anos: “Você não precisa aprender a falar, você precisa ser ouvida”. Pensou que primeiro havia esquecido como falar. Depois, esqueceu como ouvir.


* * *


Almoço de domingo. A mãe não consegue falar com o pai, o filho se recusa a conversar com a mãe, a irmã não ouve o que o filho tem a lhe dizer. Ela atira pedras. Uma família de surdos-mudos e ela com o estilingue, tentando quebrar a redoma em que se colocou.

sábado, 25 de setembro de 2010

Can Can

Não se conformava com o sumiço do Can Can. Era o seu preferido. Gostava das noites em que sentavam em volta da mesa, crianças e adultos, com seus copos de coca-cola ou de cerveja. Todos entendiam as regras simples do jogo.

O Can Can funciona assim: cada um recebe sua mão de cartas e vai descartando de acordo com uma combinação de cores e números. O que anima o jogo são os coringas. Tem carta para pular o próximo, inverter o jogo e encher a mão do outro. Pelas regras, é cada um por si. Na prática, com os coringas, os participantes acabam escolhendo seus aliados.

Mas teve o dia em que ficou triste com o fim da partida. O casal de primos se protegia e protegia os filhos. Ficou sozinha. Ele ficou do outro lado. A família dele eram os primos.

* * *

Lembrou da história quando estava deitada na cama. Quase duas horas de uma madrugada de sábado. Ela deitou, mas não conseguiu apagar a luz. Tinha passado o dia perambulando pelos cômodos do apartamento. Faltava espaço, mas o embrulho no estômago não a deixava sair. Sabia que estava triste.

Iluminada pela luz branca viu que se repetia. Mais uma vez, não podia dividir a tristeza. Lembrou do livro que acabara de ler. A autora tenta se reconciliar com o casamento e ouve do futuro marido a promessa: "tanto faz o que eles dizem. Quando estivermos na nossa casa, teremos nossas próprias regras".

Não era a primeira vez que ficava sozinha com "as regras de nós dois". Lembrou do dia do Can Can. De repente, a cumplicidade sai da história sem aviso prévio. Difícil explicar a tristeza quando a partida acabou.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mente perigosa

Ela tinha orgulho de dizer que escolhia a dedo os amigos do filho. Crianças de cinco anos que não se comportaram nunca mais foram convidadas pra passear. O mais velho também passava pela manipulação. Mudou a opção no vestibular convencido de que estava fazendo sua própria escolha. E ela: continuou insatisfeita. Afinal, o menino tinha escolhido o curso certo, mas na universidade errada.

Vez ou outra, ela se dava conta dessa tendência. Em geral, quando esperava que o filho reagisse a alguma coisa e ele simplesmente aceitava. Sabia a razão daquilo. Não quis escolher os amigos? Agora, cuide de encontrar espaço para que ele tenha suas próprias vontades. Tudo muito controlado, claro.

Não restaram muitos argumentos quando ela ouviu do amigo, na mesa do bar, que era controladora, que não suportava perder o controle sobre as coisas. Na verdade, sentia até um pouco de orgulho.

Surpresa mesmo ela ficou quando percebeu que a amiga não quis seguir suas orientações no dia que roubaram o carro. As coisas tinham saído do controle, ela sabia, mas já tinha passado por aquilo. Sabia o que fazer. Não adiantava ficar procurando o carro na rua. Tinham que ir na delegacia. Fazer o Boletim de Ocorrência. Só se deu conta que o carro era da amiga e que ela também sabia o que fazer quando a outra ligou para o seguro e pediu para acionarem o bloqueador via satélite.

O carro foi localizado no mesmo dia. Sem gasolina - nisso ela e a amiga eram parecidas -, foi abandonado pelo ladrão na rua de traz.

Passou meses pedindo desculpas para a amiga. Se insistisse bastante, talvez a convencesse de que tentou fazer o melhor.