Não estou gorda.com.br
Um pouquinho de cada uma das coisas que eu estou louca para gritar.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Flores
Talvez por isso tenha estranhado o impulso. Aquela vontade de levar pra casa um arranjo daqueles. A constatação de beleza naquele carrinho com vários buquês apertados, arranjados.
Só se deu conta depois de passar a noite toda a espera de notícias.
Finalmente entendeu o significado das flores. Elas não servem apenas aos mortos. Servem aos vivos, ajudam a situá-los fora do caixão.
Deveria ter comprado. Estava de luto.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Biscoitinho da sorte
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Notícias
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Transitivo direto
Tanta assertividade, era de se esperar que um dia cansasse. Foram-se os substantivos, as certezas e ficou o vazio. Mesmo se quisesse, não havia o que adjetivar. No vazio, não há nem bem nem mal. Nem bonito nem feio. Nem bom ou ruim.
E quando o vazio realmente tomou conta de tudo, achou que era tempo de preencher aquele tempo com ações. A vida continuou. O coração ainda batia, ainda precisava se alimentar, trabalhar, enfim, agir. Primeiro, os equívocos. Ação por quem não sabe agir. Depois, as ações que não geram arrependimento, prazer ou culpa. Ação de quem é, pra quem é.
Agora era verbo.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
De estilingue a vidraça
Só de olhar, diria que o cara era um babaca. Mas ele era inteligente. Foi o primeiro a sacar ela. Disse que ela tinha cobrinhas saindo da cabeça, avisou o amigo. Mal sabia que na manhã seguinte ela acordaria a própria Medusa, aquela que transforma quem a olha em pedra. Like a Rolling Stone. Mais uma pedra rolava.
Não gostava daquela sensação. Brincava que era a mais legal. Dizia que ninguém sobrevivia e achava graça. Mas não era isso que dizia o telefone que tocava dia sim dia não. Sempre o mesmo número. Como se do outro lado a secretária eletrônica paraguaia tivesse sido programada para retornar a ligação em dias e horas determinados e lembrá-la que ele continuava vivo.Ele e todos os outros.
Já não podiam estar juntos. Não havia mais nada a dizer. Pedras machucam e ela nunca tinha nada a dizer. Era apenas um estilingue. Com boa mira, mas um estilingue.
Tentava lembrar quando havia desapredido a falar. Lembrou da psicóloga. As crises de ansiedade na adolescência e a frase que a perseguia há mais de 20 anos: “Você não precisa aprender a falar, você precisa ser ouvida”. Pensou que primeiro havia esquecido como falar. Depois, esqueceu como ouvir.
* * *
Almoço de domingo. A mãe não consegue falar com o pai, o filho se recusa a conversar com a mãe, a irmã não ouve o que o filho tem a lhe dizer. Ela atira pedras. Uma família de surdos-mudos e ela com o estilingue, tentando quebrar a redoma em que se colocou.
sábado, 25 de setembro de 2010
Can Can
O Can Can funciona assim: cada um recebe sua mão de cartas e vai descartando de acordo com uma combinação de cores e números. O que anima o jogo são os coringas. Tem carta para pular o próximo, inverter o jogo e encher a mão do outro. Pelas regras, é cada um por si. Na prática, com os coringas, os participantes acabam escolhendo seus aliados.
Mas teve o dia em que ficou triste com o fim da partida. O casal de primos se protegia e protegia os filhos. Ficou sozinha. Ele ficou do outro lado. A família dele eram os primos.
* * *
Lembrou da história quando estava deitada na cama. Quase duas horas de uma madrugada de sábado. Ela deitou, mas não conseguiu apagar a luz. Tinha passado o dia perambulando pelos cômodos do apartamento. Faltava espaço, mas o embrulho no estômago não a deixava sair. Sabia que estava triste.
Iluminada pela luz branca viu que se repetia. Mais uma vez, não podia dividir a tristeza. Lembrou do livro que acabara de ler. A autora tenta se reconciliar com o casamento e ouve do futuro marido a promessa: "tanto faz o que eles dizem. Quando estivermos na nossa casa, teremos nossas próprias regras".
Não era a primeira vez que ficava sozinha com "as regras de nós dois". Lembrou do dia do Can Can. De repente, a cumplicidade sai da história sem aviso prévio. Difícil explicar a tristeza quando a partida acabou.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Mente perigosa
Vez ou outra, ela se dava conta dessa tendência. Em geral, quando esperava que o filho reagisse a alguma coisa e ele simplesmente aceitava. Sabia a razão daquilo. Não quis escolher os amigos? Agora, cuide de encontrar espaço para que ele tenha suas próprias vontades. Tudo muito controlado, claro.
Não restaram muitos argumentos quando ela ouviu do amigo, na mesa do bar, que era controladora, que não suportava perder o controle sobre as coisas. Na verdade, sentia até um pouco de orgulho.
Surpresa mesmo ela ficou quando percebeu que a amiga não quis seguir suas orientações no dia que roubaram o carro. As coisas tinham saído do controle, ela sabia, mas já tinha passado por aquilo. Sabia o que fazer. Não adiantava ficar procurando o carro na rua. Tinham que ir na delegacia. Fazer o Boletim de Ocorrência. Só se deu conta que o carro era da amiga e que ela também sabia o que fazer quando a outra ligou para o seguro e pediu para acionarem o bloqueador via satélite.
O carro foi localizado no mesmo dia. Sem gasolina - nisso ela e a amiga eram parecidas -, foi abandonado pelo ladrão na rua de traz.
Passou meses pedindo desculpas para a amiga. Se insistisse bastante, talvez a convencesse de que tentou fazer o melhor.