- Ninguém está apaixonado como nós. O que vamos fazer?
Era o primeiro dia da Mostra e ela tinha jurado que naquele ano assistiria ao máximo de filmes. Deu uma olhada na programação e achou o filme interessante. Estava em Ipanema. A sessão seria em uma hora e meia em Copacabana. Exatamente uma hora e meia de engarrafamento depois entrou no cinema. Literalmente, às escuras.
A frase apareceu despretenciosa no meio do filme e ela deu um jeito de anotar mesmo no escuro. Só quando chegou em casa e foi ler o que havia escrito (não lembrava e jurava que encontraria garranchos ilegíveis) que percebeu. Tinha se sentido daquela forma tantas vezes na vida que começou a disfarçar. Tinha a impressão de que apaixonados (de qualquer tipo, por qualquer coisa) incomodavam, pareciam idiotas. Não gostava de se sentir assim.
Lembrou de ter sentido aquilo nas aulas de matemática, comprando sozinha a sonhada (e ainda não usada) banheira e em dias que a animação com o andamento do trabalho era tão grande que ela mal conseguia disfarçar e o colega soltava a piada:
- Você está feliz com a profissão que escolheu? (ela nunca soube como responder a pergunta)
Tentou lembrar se havia sentido aquilo acompanhada. Não lembrava de um sentimento recíproco como o da mocinha do filme. Aquela frase embutia uma cumplicidade que ela nunca teve coragem de sentir.
Sentiu vontade de se apaixonar. Achou que o verbo deveria estar no plural. Não sabia como fazer a concordância.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Conflito de gerações
Ainda na madrugada ela mandou um SMS para a amiga. Entrou numas de disputar a atenção do italiano de 22 anos com a irmã mais nova de uma amiga e perdeu a parada. A análise começou por SMS mesmo:
"Precisava dividir isso com alguém. Não estou sabendo envelhecer. Vou criar o blog Naoestouvelha.com.br", escreveu.
A conclusão simples e óbvia, não encerrou o assunto, claro.
"Cria o blog e compra aqueles cremes da La Roche e da Vichy. Tô precisando de um pra mão e outro pro olho. Qto aos meninos, vc fica tentando conversar. Menino de 22 anos eh só pra sexo. ;-)".
"Você acha que depois de várias caipirinhas e sem falar italiano tentei conversar?"
"Tenho certeza. Eh mais forte que vc, COROA interessante. Hahahaha"
Uma semana depois, ainda se divertiam com o assunto. A rival pegou o italiano mas não deu. "Ela não quis ser mais uma", contou para a amiga. Mais conformada, a conselheira listou as vantagens de ser mais uma. As duas riram.
A análise só terminou quando ela relatou os posts do moço no Facebook. Nas fotos, o ragazzo aparecia entre as duas. Nas legendas, ela era a piú vechia e a outra, a piú nuova.
Era hora de adotar os tais cremes.
"Precisava dividir isso com alguém. Não estou sabendo envelhecer. Vou criar o blog Naoestouvelha.com.br", escreveu.
A conclusão simples e óbvia, não encerrou o assunto, claro.
"Cria o blog e compra aqueles cremes da La Roche e da Vichy. Tô precisando de um pra mão e outro pro olho. Qto aos meninos, vc fica tentando conversar. Menino de 22 anos eh só pra sexo. ;-)".
"Você acha que depois de várias caipirinhas e sem falar italiano tentei conversar?"
"Tenho certeza. Eh mais forte que vc, COROA interessante. Hahahaha"
Uma semana depois, ainda se divertiam com o assunto. A rival pegou o italiano mas não deu. "Ela não quis ser mais uma", contou para a amiga. Mais conformada, a conselheira listou as vantagens de ser mais uma. As duas riram.
A análise só terminou quando ela relatou os posts do moço no Facebook. Nas fotos, o ragazzo aparecia entre as duas. Nas legendas, ela era a piú vechia e a outra, a piú nuova.
Era hora de adotar os tais cremes.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Um ano depois
- Quero casar e ter dois filhos.
Ela tinha avisado que qualquer homem que se aproximasse seria ameaçado com aquela frase. A irmã a aconselhou a não contar para todo mundo suas intenções sórdidas. Como não estava a fim de se enrolar com ninguém mesmo, manteve a decisão e acabou levando um susto.
- Eu também.
O cidadão tinha mostrado que gostava de chocar quando ainda estavam na pizzaria e foi obrigado a passar a ficha completa para as duas amigas. Ela não queria se meter nem com conhecidos de conhecidos e pouco se meteu na conversa, mas gostou do estilo. Como o carro estava no estacionamento, resolveu voltar de taxi para casa. Mais alguns chopes e todas as convicções tinham ido embora. Menos a de casar e ter dois filhos.
A conversa rolou em outro canto da cidade. Um cabo de guerra de provocações. Até o fim da noite, um dos dois cairia.
- Você vai me mandar à merda - ela disse, imaginando uma maneira segura de terminar aquela noite. Estava mais preparada para um fora do que para qualquer coisa além de beijo na boca.
Como não tinha prestado atenção na ficha, começou tudo de novo.
- Não lembro nem o seu nome. Quantos anos você tem? Mora aonde? Já foi casado?
Ele apenas repetiu o nome e reclamou que estava perdendo o desenho favorito. Ela disse que poderiam ir embora, mas, na saída, avisou que voltaria para pegar o carro. Ele foi atrás. Já tinham ido da Barra para Ipanema e de lá para a Lapa. Voltaram para Ipanema, onde pegaram o carro na garagem do edifício comercial.
O caminho até a Zona Norte foi mais longo naquela noite. Precisavam evitar a operação Lei Seca. A conversa nem tinha começado direito e eles ainda não sabiam como acabar. Terminou com ela deixando ele no meio do caminho.
- Aqui tá bom pra você? - ela perguntou com o dia amanhecendo.
Um ano depois ainda não sabia o significado do "É, né" que ouviu como resposta.
Ela tinha avisado que qualquer homem que se aproximasse seria ameaçado com aquela frase. A irmã a aconselhou a não contar para todo mundo suas intenções sórdidas. Como não estava a fim de se enrolar com ninguém mesmo, manteve a decisão e acabou levando um susto.
- Eu também.
O cidadão tinha mostrado que gostava de chocar quando ainda estavam na pizzaria e foi obrigado a passar a ficha completa para as duas amigas. Ela não queria se meter nem com conhecidos de conhecidos e pouco se meteu na conversa, mas gostou do estilo. Como o carro estava no estacionamento, resolveu voltar de taxi para casa. Mais alguns chopes e todas as convicções tinham ido embora. Menos a de casar e ter dois filhos.
A conversa rolou em outro canto da cidade. Um cabo de guerra de provocações. Até o fim da noite, um dos dois cairia.
- Você vai me mandar à merda - ela disse, imaginando uma maneira segura de terminar aquela noite. Estava mais preparada para um fora do que para qualquer coisa além de beijo na boca.
Como não tinha prestado atenção na ficha, começou tudo de novo.
- Não lembro nem o seu nome. Quantos anos você tem? Mora aonde? Já foi casado?
Ele apenas repetiu o nome e reclamou que estava perdendo o desenho favorito. Ela disse que poderiam ir embora, mas, na saída, avisou que voltaria para pegar o carro. Ele foi atrás. Já tinham ido da Barra para Ipanema e de lá para a Lapa. Voltaram para Ipanema, onde pegaram o carro na garagem do edifício comercial.
O caminho até a Zona Norte foi mais longo naquela noite. Precisavam evitar a operação Lei Seca. A conversa nem tinha começado direito e eles ainda não sabiam como acabar. Terminou com ela deixando ele no meio do caminho.
- Aqui tá bom pra você? - ela perguntou com o dia amanhecendo.
Um ano depois ainda não sabia o significado do "É, né" que ouviu como resposta.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Sobre sapatos e indigentes
Ajude a preservar Guapimirim. A frase, que não diz nada para uns ou pode parecer uma bandeira ambientalista para outros, era a única que ela conseguia construir. Ia e voltava. A cabeça dela a mil pensava em como procurar trabalho, no que gostaria de fazer.
Falar com os amigos, encontrar explicações confortáveis para o que tinha acontecido, ligar para pessoas que não procurava há muito tempo. Qual a melhor forma de pedir trabalho? Como conseguir um emprego? Ajude a preservar Guapimirim.
Tem que saber o que quer para conseguir, diziam. Ajude a preservar Guapimirim.
O jardim que precisava de uma faxina, a pintura que já estava indo embora, as janelas de madeira que não eram a melhor opção para o lugar úmido. Ajude a preservar Guapimirim.
Então, ela lembrou de ter pensando um dia que os sapatos a afastavam da indigência. Lembrou que isso foi em um dia de sol, quando passava pela Lagoa a caminho de uma reunião e viu aquele grupo de moradores de rua. Não se incomodaria de comer só carboidratos, engordar sem culpa, andar pelas ruas sem compromisso. Foi salva pelos sapatos.
Fez uma lista de contatos, atualizou o currículo e começou a ligar.
Falar com os amigos, encontrar explicações confortáveis para o que tinha acontecido, ligar para pessoas que não procurava há muito tempo. Qual a melhor forma de pedir trabalho? Como conseguir um emprego? Ajude a preservar Guapimirim.
Tem que saber o que quer para conseguir, diziam. Ajude a preservar Guapimirim.
O jardim que precisava de uma faxina, a pintura que já estava indo embora, as janelas de madeira que não eram a melhor opção para o lugar úmido. Ajude a preservar Guapimirim.
Então, ela lembrou de ter pensando um dia que os sapatos a afastavam da indigência. Lembrou que isso foi em um dia de sol, quando passava pela Lagoa a caminho de uma reunião e viu aquele grupo de moradores de rua. Não se incomodaria de comer só carboidratos, engordar sem culpa, andar pelas ruas sem compromisso. Foi salva pelos sapatos.
Fez uma lista de contatos, atualizou o currículo e começou a ligar.
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