Ligou pra um. Nada. Ligou pra outro. Nada. Tentou a terceira, a quarta e nada. Voltou aos primeiros da lista. (Talvez não tivessem ouvido a primeira chamada). NADA.
Sentiu falta do tempo em que conseguia passar a tarde na praia, de barraca em barraca, se revezando entre os amigos.
Pensou que talvez não tivesse sido uma boa amiga. Não mandava mensagens de Natal, não era de ligar, de frequentar a casa. Não convidava ninguém para ir a sua. Era longe da praia.
Sentiu falta do tempo em que havia programas em família.
Pensou que os gostos não combinavam. Um gosta de cerveja, outro de vinho. Um de praia, outro de mato. Um de ficar em casa, outro de sair. Um de cinema, outro de botequim. Todos mereciam ser felizes.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Foi apenas um sonho
- O mundo pode estar acabando. Ela pede para esperar um pouquinho porque antes vai ao cinema.
A irmã não cansava de dizer isso. Não entendia porque ela preferia sair do bar, com todo mundo ainda na pilha, pra se enfiar - muitas vezes sozinha - no cinema. Em outro bar, em outro canto da cidade, as pessoas pareciam entender essa preferência.
- Maravilhoso! Mas casal não pode ver. Sai do cinema em crise.
Para ela, além de bom, o filme em questão era um caso raro. O nome em português - Foi apenas um sonho - parecia melhor que o original em inglês: Revolutionary Road. Fizeram mais alguns comentários antes de encerrar o assunto. Para ela e para o outro único solteiro do grupo, a história do filme tinha se misturado às fases da separação. Ficou combinado que o remédio era amargo, mas necessário.
Dois dias depois, as cenas - do filme, da conversa e do fim de semana - se misturavam na cabeça dela.
* * *
Cena 1: O fim de semana
Ele falava naquele dia há meses. Era para o tal almoço ser a estréia dela com os amigos dele. Ela lembrou que andava evitando até festa de amigos mais íntimos, estava insegura, até meio deprimida, tinha medo de que alguma coisa naquele dia acabasse virando briga entre os dois. Estava bem com ele. Mesmo assim, iria.
- Então, não precisa ir. Melhor não ir.
Ela insistiu. A briga aconteceu.
Ele não voltou atrás. Foi sozinho.
Ela lembrou que ele nunca tinha levado nenhuma namorada no tal evento. Achava tudo muito importante.
Se sentiu desconvidada.
Tinha se empenhado tanto em ir na festa do outro que acabou sem uma boa desculpa para não ir ao aniversário do amigo dela, naquela mesma noite. Saiu de casa sozinha pra enfrentar as feras.
* * *
Cena 2: O filme
A mudança para Paris estava acertada. O projeto era dele. Sonhava com a cidade. Venderiam tudo, aprenderiam outra língua. Por amor ou apenas por lealdade, ela topou. Avisaram amigos e vizinhos. Trocariam a vida certinha no subúrbio londrino pela cidade desconhecida. Teriam uma vida de sonho.
Pena que ele mudou de ideia. Foi promovido, arranjou uma amante. Estava se divertindo.
Ela ficou com o sonho.
* * *
Cena 3: A conversa
- O filme é uma porrada.
Ele contou que o casamento terminou logo depois. Ela contou que tinha acabado de se separar.
Lembrou que tinha saído do cinema convencida de que é impossível sonhar junto. Não sabia se conseguiria mudar de idéia.
* * *
Entre as cenas, a confusão. A decisão dele. A lealdade dela. A diversão dele. A decisão dela.
Aqueles olhos azuis do amigo do amigo.
Teve certeza de que continuaria sonhando sozinha ou acompanhada. Era mais forte que ela.
A irmã não cansava de dizer isso. Não entendia porque ela preferia sair do bar, com todo mundo ainda na pilha, pra se enfiar - muitas vezes sozinha - no cinema. Em outro bar, em outro canto da cidade, as pessoas pareciam entender essa preferência.
- Maravilhoso! Mas casal não pode ver. Sai do cinema em crise.
Para ela, além de bom, o filme em questão era um caso raro. O nome em português - Foi apenas um sonho - parecia melhor que o original em inglês: Revolutionary Road. Fizeram mais alguns comentários antes de encerrar o assunto. Para ela e para o outro único solteiro do grupo, a história do filme tinha se misturado às fases da separação. Ficou combinado que o remédio era amargo, mas necessário.
Dois dias depois, as cenas - do filme, da conversa e do fim de semana - se misturavam na cabeça dela.
* * *
Cena 1: O fim de semana
Ele falava naquele dia há meses. Era para o tal almoço ser a estréia dela com os amigos dele. Ela lembrou que andava evitando até festa de amigos mais íntimos, estava insegura, até meio deprimida, tinha medo de que alguma coisa naquele dia acabasse virando briga entre os dois. Estava bem com ele. Mesmo assim, iria.
- Então, não precisa ir. Melhor não ir.
Ela insistiu. A briga aconteceu.
Ele não voltou atrás. Foi sozinho.
Ela lembrou que ele nunca tinha levado nenhuma namorada no tal evento. Achava tudo muito importante.
Se sentiu desconvidada.
Tinha se empenhado tanto em ir na festa do outro que acabou sem uma boa desculpa para não ir ao aniversário do amigo dela, naquela mesma noite. Saiu de casa sozinha pra enfrentar as feras.
* * *
Cena 2: O filme
A mudança para Paris estava acertada. O projeto era dele. Sonhava com a cidade. Venderiam tudo, aprenderiam outra língua. Por amor ou apenas por lealdade, ela topou. Avisaram amigos e vizinhos. Trocariam a vida certinha no subúrbio londrino pela cidade desconhecida. Teriam uma vida de sonho.
Pena que ele mudou de ideia. Foi promovido, arranjou uma amante. Estava se divertindo.
Ela ficou com o sonho.
* * *
Cena 3: A conversa
- O filme é uma porrada.
Ele contou que o casamento terminou logo depois. Ela contou que tinha acabado de se separar.
Lembrou que tinha saído do cinema convencida de que é impossível sonhar junto. Não sabia se conseguiria mudar de idéia.
* * *
Entre as cenas, a confusão. A decisão dele. A lealdade dela. A diversão dele. A decisão dela.
Aqueles olhos azuis do amigo do amigo.
Teve certeza de que continuaria sonhando sozinha ou acompanhada. Era mais forte que ela.
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