Ele lançou o desafio. Mandou parar de fazer piadas que ninguém entende e começar a escrever a sério. Como sempre, foi elegante. Insinuou que Fernando Sabino cometia o mesmo erro. Sabia que ela não retrucaria.
Ela ouviu, ou melhor, leu o conselho. Curiosamente, não se sentia incapaz. Só não sabia por onde começar. No dia seguinte, tentou fugir. Fez que estava muito ocupada. Não estava. Quando finalmente encontrou uma resposta, achou que até poderia ser verdadeira.
- Pra conseguir isso, escrever tem que deixar de ser uma terapia e passar a ser, pelo menos, um hobby.
Ele insistiu. Sempre elegante. Ela desconversou. Acabou se enfiando no cinema. Sem coragem de encarar as próprias histórias, se entregou as dos outros.
Quando tentou escrever novamente, a intenção era falar do filme que tinha assistido. Já estava planejando criar um segundo blog com os textos ligados ao cinema. Uma forma de separar a terapia do hobby. O gancho era bom.
O filme "Um homem sério" e seu final sem nenhuma leveza tinham atropelado ela um pensamento. na memória justamente quando ela buscava algum consolo no enredo clássico das comédias românticas: quando a vida da mocinha parece não ter mais solução é porque o filme está acabando. Ou o príncipe encantado aparece para resgatá-la ou ela dá a volta por cima, arranja outro emprego e o príncipe encantado é obrigado a se render àquela mulher maravilhosa e, finalmente, bem resolvida.
Impossível. A frase do rabino -
, mas o resultado foi prático. Ela teve que encarar mais uma semana de ceticismo que só piorou quando a associação de idéias a levou de volta à entrevista de emprego na semana anterior.
- Afinal, o que você quer?
A pergunta surgiu depois do relato da saga dos últimos meses. Dessa vez, ou por sorte ou porque estava tomando jeito, ela se segurou. Encontrou uma resposta um pouco melhor do que a habitual. Não disse que queria beijar na boca e ser feliz.
Só quando se tocou que não tinha sequer lembrado da resposta que deu tantas vezes na vida - a do beijo - percebeu. Não que a achasse apropriada para uma pergunta profissional. Claro que não. Mas, em outros tempos, a associação seria automática. Riria sozinha, mas riria.
Foi dormir lembrando do rabino.