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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Transitivo direto

Aprendeu a evitar adjetivos bem antes de se tornar jornalista. Ela era substantiva. Tudo na sua vida era. E com artigo definido. O amor e não um amor. As escolhas. As palavras. Até os atos eram substantivos. Existiam para serem nomeados.

Tanta assertividade, era de se esperar que um dia cansasse. Foram-se os substantivos, as certezas e ficou o vazio. Mesmo se quisesse, não havia o que adjetivar. No vazio, não há nem bem nem mal. Nem bonito nem feio. Nem bom ou ruim.

E quando o vazio realmente tomou conta de tudo, achou que era tempo de preencher aquele tempo com ações. A vida continuou. O coração ainda batia, ainda precisava se alimentar, trabalhar, enfim, agir. Primeiro, os equívocos. Ação por quem não sabe agir. Depois, as ações que não geram arrependimento, prazer ou culpa. Ação de quem é, pra quem é.

Agora era verbo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De estilingue a vidraça

Só de olhar, diria que o cara era um babaca. Mas ele era inteligente. Foi o primeiro a sacar ela. Disse que ela tinha cobrinhas saindo da cabeça, avisou o amigo. Mal sabia que na manhã seguinte ela acordaria a própria Medusa, aquela que transforma quem a olha em pedra. Like a Rolling Stone. Mais uma pedra rolava.

Não gostava daquela sensação. Brincava que era a mais legal. Dizia que ninguém sobrevivia e achava graça. Mas não era isso que dizia o telefone que tocava dia sim dia não. Sempre o mesmo número. Como se do outro lado a secretária eletrônica paraguaia tivesse sido programada para retornar a ligação em dias e horas determinados e lembrá-la que ele continuava vivo.Ele e todos os outros.

Já não podiam estar juntos. Não havia mais nada a dizer. Pedras machucam e ela nunca tinha nada a dizer. Era apenas um estilingue. Com boa mira, mas um estilingue.

Tentava lembrar quando havia desapredido a falar. Lembrou da psicóloga. As crises de ansiedade na adolescência e a frase que a perseguia há mais de 20 anos: “Você não precisa aprender a falar, você precisa ser ouvida”. Pensou que primeiro havia esquecido como falar. Depois, esqueceu como ouvir.


* * *


Almoço de domingo. A mãe não consegue falar com o pai, o filho se recusa a conversar com a mãe, a irmã não ouve o que o filho tem a lhe dizer. Ela atira pedras. Uma família de surdos-mudos e ela com o estilingue, tentando quebrar a redoma em que se colocou.