Não se conformava com o sumiço do Can Can. Era o seu preferido. Gostava das noites em que sentavam em volta da mesa, crianças e adultos, com seus copos de coca-cola ou de cerveja. Todos entendiam as regras simples do jogo.
O Can Can funciona assim: cada um recebe sua mão de cartas e vai descartando de acordo com uma combinação de cores e números. O que anima o jogo são os coringas. Tem carta para pular o próximo, inverter o jogo e encher a mão do outro. Pelas regras, é cada um por si. Na prática, com os coringas, os participantes acabam escolhendo seus aliados.
Mas teve o dia em que ficou triste com o fim da partida. O casal de primos se protegia e protegia os filhos. Ficou sozinha. Ele ficou do outro lado. A família dele eram os primos.
* * *
Lembrou da história quando estava deitada na cama. Quase duas horas de uma madrugada de sábado. Ela deitou, mas não conseguiu apagar a luz. Tinha passado o dia perambulando pelos cômodos do apartamento. Faltava espaço, mas o embrulho no estômago não a deixava sair. Sabia que estava triste.
Iluminada pela luz branca viu que se repetia. Mais uma vez, não podia dividir a tristeza. Lembrou do livro que acabara de ler. A autora tenta se reconciliar com o casamento e ouve do futuro marido a promessa: "tanto faz o que eles dizem. Quando estivermos na nossa casa, teremos nossas próprias regras".
Não era a primeira vez que ficava sozinha com "as regras de nós dois". Lembrou do dia do Can Can. De repente, a cumplicidade sai da história sem aviso prévio. Difícil explicar a tristeza quando a partida acabou.
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sábado, 25 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Mente perigosa
Ela tinha orgulho de dizer que escolhia a dedo os amigos do filho. Crianças de cinco anos que não se comportaram nunca mais foram convidadas pra passear. O mais velho também passava pela manipulação. Mudou a opção no vestibular convencido de que estava fazendo sua própria escolha. E ela: continuou insatisfeita. Afinal, o menino tinha escolhido o curso certo, mas na universidade errada.
Vez ou outra, ela se dava conta dessa tendência. Em geral, quando esperava que o filho reagisse a alguma coisa e ele simplesmente aceitava. Sabia a razão daquilo. Não quis escolher os amigos? Agora, cuide de encontrar espaço para que ele tenha suas próprias vontades. Tudo muito controlado, claro.
Não restaram muitos argumentos quando ela ouviu do amigo, na mesa do bar, que era controladora, que não suportava perder o controle sobre as coisas. Na verdade, sentia até um pouco de orgulho.
Surpresa mesmo ela ficou quando percebeu que a amiga não quis seguir suas orientações no dia que roubaram o carro. As coisas tinham saído do controle, ela sabia, mas já tinha passado por aquilo. Sabia o que fazer. Não adiantava ficar procurando o carro na rua. Tinham que ir na delegacia. Fazer o Boletim de Ocorrência. Só se deu conta que o carro era da amiga e que ela também sabia o que fazer quando a outra ligou para o seguro e pediu para acionarem o bloqueador via satélite.
O carro foi localizado no mesmo dia. Sem gasolina - nisso ela e a amiga eram parecidas -, foi abandonado pelo ladrão na rua de traz.
Passou meses pedindo desculpas para a amiga. Se insistisse bastante, talvez a convencesse de que tentou fazer o melhor.
Vez ou outra, ela se dava conta dessa tendência. Em geral, quando esperava que o filho reagisse a alguma coisa e ele simplesmente aceitava. Sabia a razão daquilo. Não quis escolher os amigos? Agora, cuide de encontrar espaço para que ele tenha suas próprias vontades. Tudo muito controlado, claro.
Não restaram muitos argumentos quando ela ouviu do amigo, na mesa do bar, que era controladora, que não suportava perder o controle sobre as coisas. Na verdade, sentia até um pouco de orgulho.
Surpresa mesmo ela ficou quando percebeu que a amiga não quis seguir suas orientações no dia que roubaram o carro. As coisas tinham saído do controle, ela sabia, mas já tinha passado por aquilo. Sabia o que fazer. Não adiantava ficar procurando o carro na rua. Tinham que ir na delegacia. Fazer o Boletim de Ocorrência. Só se deu conta que o carro era da amiga e que ela também sabia o que fazer quando a outra ligou para o seguro e pediu para acionarem o bloqueador via satélite.
O carro foi localizado no mesmo dia. Sem gasolina - nisso ela e a amiga eram parecidas -, foi abandonado pelo ladrão na rua de traz.
Passou meses pedindo desculpas para a amiga. Se insistisse bastante, talvez a convencesse de que tentou fazer o melhor.
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