Você escreve ficção ou é só para exorcizar fantasmas? A pergunta era inocente e a resposta era óbvia, mas doeu. Eu, que sempre defendi a ficção, que morro de preguiça de ler biografias, ando escrevendo para exorcizar fantasmas, falando do meu próprio umbigo. Só não me senti mais medíocre porque tinha acabado de voltar da Flip e estava com um post pela metade sobre o tema que mais me atraiu na programação e que marcou presença em várias mesas: a confusão entre o público e o privado.
Não tenho nenhuma pretensão literária, mas me consola saber que na era dos blogs e twitters ainda tem gente que consegue transformar experiência pessoal em arte e boa literatura sem ser engolido pelo próprio umbigo. Claro que não dá para chamar o Doce Veneno do Escorpião, da Bruna Surfistinha, de literatura. (Esse eu li, confesso, e com interesses sórdidos) Mas quem é capaz de dizer que a ferroada que a francesa Sophie Calle deu no ex-namorado Gregoire Bouillier não é coisa de artista, daqueles mais excêntricos?
A moça diz que tem o hábito de tentar inverter as histórias para sair por cima e chama de "projeto" a iniciativa que fez com que 107 mulheres, de várias profissões diferentes, respondessem o e-mail em que o tal Greg terminava com ela. É claro que talento e criatividade são sempre excelentes armas, mas o melhor foi ouvi-la dizer que, a partir de um certo momento, o projeto já parecia muito mais importante do que a história de amor e ela teve medo que ele voltasse porque destruiria o projeto. Muito bom!
Agora, escrevendo esse post, fico pensando em quantas histórias novas só são possíveis porque outras já terminaram. E quantos projetos que começam como fuga, como uma forma de dar sentido, dar a volta por cima, não acabam se tornando mais importantes do que a motivação inicial.
Talvez o embate entre o público e o privado passe pela definição sobre o que está acabado ou não. Então, enquanto a artista Sophie desenvolve projetos, eu treino para contar histórias (e exorcizo fantasmas).
O privado, uma vez transformado, pode se tornar público sem que isso doa ou pareça exposição. Tudo depende da transformação, da nova forma dada, da reflexão feita em cima daquela experiência. Um exemplo disso é exatamente este texto.
ResponderExcluirPoder, pode. Mas, não só aqui na blogosfera, o privado é muitas vezes mal transformado, mal disfarçado, e tornado público de forma dolorosa (principalmente para as "vítimas").
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