Ela tinha orgulho de dizer que escolhia a dedo os amigos do filho. Crianças de cinco anos que não se comportaram nunca mais foram convidadas pra passear. O mais velho também passava pela manipulação. Mudou a opção no vestibular convencido de que estava fazendo sua própria escolha. E ela: continuou insatisfeita. Afinal, o menino tinha escolhido o curso certo, mas na universidade errada.
Vez ou outra, ela se dava conta dessa tendência. Em geral, quando esperava que o filho reagisse a alguma coisa e ele simplesmente aceitava. Sabia a razão daquilo. Não quis escolher os amigos? Agora, cuide de encontrar espaço para que ele tenha suas próprias vontades. Tudo muito controlado, claro.
Não restaram muitos argumentos quando ela ouviu do amigo, na mesa do bar, que era controladora, que não suportava perder o controle sobre as coisas. Na verdade, sentia até um pouco de orgulho.
Surpresa mesmo ela ficou quando percebeu que a amiga não quis seguir suas orientações no dia que roubaram o carro. As coisas tinham saído do controle, ela sabia, mas já tinha passado por aquilo. Sabia o que fazer. Não adiantava ficar procurando o carro na rua. Tinham que ir na delegacia. Fazer o Boletim de Ocorrência. Só se deu conta que o carro era da amiga e que ela também sabia o que fazer quando a outra ligou para o seguro e pediu para acionarem o bloqueador via satélite.
O carro foi localizado no mesmo dia. Sem gasolina - nisso ela e a amiga eram parecidas -, foi abandonado pelo ladrão na rua de traz.
Passou meses pedindo desculpas para a amiga. Se insistisse bastante, talvez a convencesse de que tentou fazer o melhor.
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