Só de olhar, diria que o cara era um babaca. Mas ele era inteligente. Foi o primeiro a sacar ela. Disse que ela tinha cobrinhas saindo da cabeça, avisou o amigo. Mal sabia que na manhã seguinte ela acordaria a própria Medusa, aquela que transforma quem a olha em pedra. Like a Rolling Stone. Mais uma pedra rolava.
Não gostava daquela sensação. Brincava que era a mais legal. Dizia que ninguém sobrevivia e achava graça. Mas não era isso que dizia o telefone que tocava dia sim dia não. Sempre o mesmo número. Como se do outro lado a secretária eletrônica paraguaia tivesse sido programada para retornar a ligação em dias e horas determinados e lembrá-la que ele continuava vivo.Ele e todos os outros.
Já não podiam estar juntos. Não havia mais nada a dizer. Pedras machucam e ela nunca tinha nada a dizer. Era apenas um estilingue. Com boa mira, mas um estilingue.
Tentava lembrar quando havia desapredido a falar. Lembrou da psicóloga. As crises de ansiedade na adolescência e a frase que a perseguia há mais de 20 anos: “Você não precisa aprender a falar, você precisa ser ouvida”. Pensou que primeiro havia esquecido como falar. Depois, esqueceu como ouvir.
* * *
Almoço de domingo. A mãe não consegue falar com o pai, o filho se recusa a conversar com a mãe, a irmã não ouve o que o filho tem a lhe dizer. Ela atira pedras. Uma família de surdos-mudos e ela com o estilingue, tentando quebrar a redoma em que se colocou.
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