Aquela era a quarta mudança em pouco mais de três anos e Maria continuava sem coragem para mexer em todas as caixas. Levava as coisas de um lugar para o outro, “entocava”, como dizia, dentro de armários, mas os fantasmas continuavam a circular pela casa.
Mais um fim de semana chegou e daquele não passaria. Resolveu começar pelo quarto dos fundos. Tirou uma, duas, três caixas do armário. Mal sentou no chão para remexer no passado e viu, na última prateleira da estante ao lado, a coleção de revistas de decoração.
Colocou todas as caixas de lado. Sabia bem o que tinha nelas. Fotos, cartas, cartões. Histórias muito parecidas. Uma mulher que prometia ser a mais legal, divertida, inteligente. Um homem com histórias para contar, coisas para ensinar.
A cronologia também era a mesma. O olhar atraía. A conversa conquistava. O sexo prendia. Os projetos prolongavam. A repetição afastava. O medo mantinha. O cansaço encerrava.
Tantas mudanças e as revistas continuavam ali. Começou a tirar algumas ao acaso: setembro de 2004, janeiro de 2001, novembro de 2009. Não havia nenhuma organização. Os anos embaralhados e as pautas eram muito parecidas. Folheou as revistas. A editora era a mesma, o que talvez explicasse alguma coisa.
Começou a ler o editorial de uma delas. A editora pegou Maria pelo pé:
“Encontrar o melhor espaço para viver, compartilhar alegrias, serenar a alma, trabalhar e se divertir também...Enfim, saber dimensionar o tamanho dessa casa não é tarefa das mais fáceis. Inclusive porque somos assaltados por toda a sorte de fantasia quando brincamos de casinha, tentando o desenho mágico de nosso refúgio.”
Maria abriu a primeira caixa. Logo por cima, a foto de um terreno com algumas estacas, o começo de construção. Em um canudo, várias plantas da futura casa, formatos de telhado, projetos de jardins.
Abriu a segunda. Um sapatinho de bebê guardado. Era o sapatinho do batizado. Um dia, quando os anos tivessem passado, seria a relíquia exposta com orgulho na sala bem decorada com toques vintage.
A terceira caixa estava mais vazia. Uma pedra, uma concha, um embrulho. Lembrou que era uma cachaça envelhecida em barril de carvalho. Comprada em uma viagem, deveria ter sido degustada no bar que começava a ser criado. Envelhecia naquele embrulho há anos.
Não havia como fugir. Pela primeira vez, Maria tinha que arrumar sozinha seu refúgio.
Lembrou do prato trazido na última viagem e que deveria ser colocado na parede. Havia também as novas fotos para os porta-retratos. Tinha arranjado um lugar para os DVDs. Assim, sobraria mais espaço na estante para os livros e para exibir, como merecia, o espelho que tinha sido da avó.
As caixas pareciam bem guardadas ali no quarto dos fundos. Separou o embrulho da cachaça envelhecida e o sapatinho do bebê. Fechou o resto e colocou de volta em cima do armário. Começaria a arrumação pela sala. A cachaça e a lima da pérsia que estava na geladeira garantiriam a energia para a empreitada. O sapatinho ficaria bem ao lado do espelho.
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