- Ninguém está apaixonado como nós. O que vamos fazer?
Era o primeiro dia da Mostra e ela tinha jurado que naquele ano assistiria ao máximo de filmes. Deu uma olhada na programação e achou o filme interessante. Estava em Ipanema. A sessão seria em uma hora e meia em Copacabana. Exatamente uma hora e meia de engarrafamento depois entrou no cinema. Literalmente, às escuras.
A frase apareceu despretenciosa no meio do filme e ela deu um jeito de anotar mesmo no escuro. Só quando chegou em casa e foi ler o que havia escrito (não lembrava e jurava que encontraria garranchos ilegíveis) que percebeu. Tinha se sentido daquela forma tantas vezes na vida que começou a disfarçar. Tinha a impressão de que apaixonados (de qualquer tipo, por qualquer coisa) incomodavam, pareciam idiotas. Não gostava de se sentir assim.
Lembrou de ter sentido aquilo nas aulas de matemática, comprando sozinha a sonhada (e ainda não usada) banheira e em dias que a animação com o andamento do trabalho era tão grande que ela mal conseguia disfarçar e o colega soltava a piada:
- Você está feliz com a profissão que escolheu? (ela nunca soube como responder a pergunta)
Tentou lembrar se havia sentido aquilo acompanhada. Não lembrava de um sentimento recíproco como o da mocinha do filme. Aquela frase embutia uma cumplicidade que ela nunca teve coragem de sentir.
Sentiu vontade de se apaixonar. Achou que o verbo deveria estar no plural. Não sabia como fazer a concordância.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seja gentil. Me ajude a quebrar a indústria de antidepressivos.